Quando passar não é chegar
Hoje, vendo um perfil de uma concurseira nas redes sociais, me lembrei da época que estudava para concursos públicos. Lembrei do caminho que percorri no mundo dos concursos públicos e de como, por muitos anos, buscar estabilidade e segurança financeira sempre foi algo muito forte dentro de mim, a ponto de eu decidir, muitas vezes, mais com a razão do que com o coração. E isso aconteceu no meu primeiro emprego público em São Paulo.
A aprovação no concurso de analista do Tribunal Regional do Trabalho me levou a morar por nove meses em São Paulo, longe da minha família e de tudo o que me era familiar. Era o início da tão esperada vida pública, construída após anos de estudo e expectativa. No entanto, o que encontrei foi um trabalho essencialmente mecânico, repetitivo e vazio de sentido para mim. Passava os dias alimentando sistemas com números de petições, numa rotina de trabalho que, pouco a pouco, foi revelando se revelando maçante e sem sentido. Eu, que costumo buscar profundidade e sentido em tudo, me deparei com um trabalho
esvaziado de propósito.
Além dessa atividade pouco desafiadora, também era solicitada a procurar processos físicos perdidos em milhares de prateleiras, frequentemente exigidos por advogados no balcão. Não escrevo isso para desqualificar o trabalho em si ou
quem o exerce. O incômodo vinha de outro lugar: eu havia sido aprovada em um
concurso de nível superior e esperava desempenhar uma função minimamente compatível com minha formação. Havia ali uma sensação persistente de subutilização, de desperdício de potencial: era difícil de ignorar.
Somado a isso, o ambiente de trabalho não era acolhedor. Havia muita reclamação, fofoca e um clima constante de insatisfação. Lembro que, no meu primeiro dia, o chefe do setor estava se despedindo — era seu último dia ali. Curiosamente, foi também o único dia em que trabalhamos juntos. Eu tinha um voo marcado para retornar à minha cidade e, sem muita noção do tempo de deslocamento até o aeroporto — que envolvia trem, metrô e táxi —, pedi se poderia sair alguns minutos mais cedo para evitar atrasos. A resposta veio seca, direta, sem espaço para negociação: “não”.
Engoli seco e esperei o horário regular. Minutos depois, ele voltou atrás e autorizou minha saída antecipada. Foi um episódio pequeno, quase banal, mas que ficou registrado em mim. Não pelo atraso evitado, mas pela forma. Pela rigidez. Pela sensação de estar em um lugar onde a humanidade parecia sempre em segundo plano.
Com o passar dos dias, fui percebendo que o problema não era apenas o trabalho, nem a cidade, nem a distância da família. O incômodo era mais sutil e, justamente por isso, mais difícil de encarar: eu estava vivendo uma escolha que não havia sido feita com o coração. Havia segurança, estabilidade e previsibilidade — tudo aquilo que me ensinaram a desejar. Mas não havia sentido.
Após passar por minha experiência em São Paulo, eu me pergunto quantas pessoas continuam em lugares que as adoecem para não parecer ingratas. Quantas permanecem fiéis a antigas escolhas só para não desagradar o outro ou para não enfrentar o “constrangimento” de dizer: “eu mudei”.
Acredito, sinceramente, que passamos por tudo o que precisamos passar e que, de alguma forma, sempre estamos no lugar onde deveríamos estar. Cada experiência carrega um sentido, ainda que ele só se revele com o tempo. Cabe a nós atravessá-las com disponibilidade e transformá-las em aprendizado, em vez de apenas suportá-las.
São Paulo me ensinou que nem toda conquista é um encontro. Passei, cheguei, ocupei um lugar desejado por muitos — e, ainda assim, não me reconheci ali. Aprendi que mérito não garante pertencimento e que esforço não obriga permanência. A tão sonhada segurança revelou seu outro lado: aquilo que prometia proteção começou, pouco a pouco, a se transformar em prisão.
Foi ali que compreendi que nenhuma estabilidade justifica o abandono de si. Permanecer não é sinônimo de maturidade, assim como mudar de rota não apaga o caminho já percorrido. Algumas decisões não nos afastam da segurança — apenas nos aproximam da verdade.
Equilíbrio não é perfeição
Fui ao dermatologista na semana passada e, mais uma vez, percebi que não segui à risca as instruções que me foram dadas no ano passado: filtro solar todos os dias, ácido à noite e um produto para usar de dia. Ácido eu passo com frequência; filtro, às vezes; o produto para o dia, quase nunca. A médica não me chamou atenção, mas eu me dei conta de que, ano após ano, nunca consigo seguir exatamente o que me é orientado.
Nesse mesmo dia, percebi também que não lembro de tomar diariamente as vitaminas que o nutrólogo me passou — e tampouco lembro de dar as vitaminas para minha filha todos os dias. E por falar em filha, percebi que fazia alguns dias que eu não abria o aplicativo da creche, onde todos os dias úteis são enviadas fotos e informações sobre a rotina dela.
Esse aplicativo, inclusive, quase rendeu uma DR entre eu e meu marido, quando ele perguntou — com aquela cutucada leve — “nossa, você não viu isso no aplicativo?”. Fiz cara feia. Culpa e irritação se misturaram. Como ele é zero machista e muito compreensivo, logo percebeu que tinha passado um pouco do
ponto. Calma: ficou tudo bem, a DR não rendeu.
Tenho muitos defeitos, mas sei que uma das minhas qualidades é ser uma pessoa disciplinada. E mesmo assim — mesmo sendo organizada em tantos aspectos da minha vida — nunca vou dar conta de tudo do jeito ideal. Reconhecer isso me trouxe leveza. Vou buscando equilíbrio, do jeito possível, lembrando que perfeição não existe, e que tentar alcançá-la transforma a vida em um lugar pesado, com culpa de brinde.
Somos mães e pais. Somos filhos. Somos amigos. Somos profissionais. Somos irmãs. Precisamos cuidar da saúde física e da mental. Precisamos trabalhar, amar, descansar. Precisamos brincar, dormir, viver. Somos, antes de tudo, humanos — e humanos não dão conta de tudo o tempo todo. Vivemos equilibrando pratos, papéis e expectativas. E, ainda assim, precisaremos reservar tempo para cuidar de nós, porque, sem isso, nenhum dos outros papéis se sustenta.
Do lado oposto do equilíbrio está o radicalismo — e ele sempre me incomodou. Acredito que restrições extremas não se sustentam no longo prazo. Elas até entregam resultados rápidos, mas nem sempre duram. Lembro de um reality da Netflix, “Quilos Mortais”. Nele, pessoas obesas participam de um programa com treinos intensos e dietas rígidas. Muitos perdem peso rapidamente e ganham o prêmio. Mas anos depois, quando reencontrados, boa parte havia recuperado tudo.
Nosso organismo precisa de tempo e previsibilidade para mudar hábitos. Se a transformação é radical, pode até funcionar por um tempo, mas tende a ruir depois — o corpo cobra, compensa, retorna ao velho padrão, porque não internalizou a mudança.
Que,
entre tantas metas, papéis e responsabilidades, a gente escolha ser mais gentil consigo mesmo. Que possamos aceitar que falhar faz parte de uma vida equilibrada. Que perfeição é inalcançável — mas o possível, o real, o humano… esse nos nutre.
Ah! E hoje eu vou lembrar de passar o filtro solar.
Estamos apenas 20% do nosso dia de fato presentes?
No livro Yoga, de Emmanuel Carrère, há um dado estatístico que me chamou muito a atenção: uma pesquisa revelou que as pessoas estão apenas 20% do tempo no momento presente. No restante do dia, a mente divaga entre passado e futuro.
Lembro que, no meu primeiro dia de terapia, a psicóloga me deu uma tarefa: refletir qual porcentagem do meu dia eu passava no passado, qual estava no presente e qual estava no futuro. Na época, não lembro o que respondi ou se realmente levei essa reflexão adiante. Mas hoje, ao me deparar com esse dado do livro, senti um convite para pensar sobre nosso poder de presença.
Vivemos distraídos. Preocupados. Ansiosos. Temos a famosa “mente macaca”: pensamentos que pulam de um galho a outro — do passado para o futuro — quase sem tocar o agora. Criamos histórias, suposições e roteiros inteiros dentro da cabeça, como se essa realidade paralela tivesse mais força do que o momento em que respiramos. A mente mente, e muitas vezes acreditamos.
Ruminamos o passado, revemos conversas, imaginamos o que poderíamos ter dito. Como se pensar fosse capaz de alterar o que já aconteceu. Saímos do passado, pulamos o presente e aterrissamos direto no futuro. Antecipamos cenários que provavelmente nem ocorrerão e criamos hipóteses catastróficas. É desgastante — mas compreensível: quando não controlamos o futuro, pensar parece oferecer segurança, ainda que ilusória.
Não se culpe por “pensar demais”. Evolutivamente, sobreviver exigia antecipar perigos e aprender com erros. É humano. Nosso cérebro foi moldado para isso. O
que precisamos é reconhecer o impacto desse excesso: quando vivemos mais na
cabeça do que na vida que acontece diante dos olhos, perdemos o contato com o corpo, com os sentidos, com quem amamos — e até conosco.
É nesse contexto que surge o mindfulness, uma prática terapêutica que nos ensina a observar pensamentos, ao invés de lutar contra eles. Não se trata de esvaziar a mente, mas de reconhecer o fluxo — e permitir que cada pensamento passe, como uma nuvem que atravessa o céu. Com a prática, percebemos quando a mente nos sequestra e, aos poucos, aprendemos a voltar.
Eu, particularmente, gosto de ler biografias de pessoas que enfrentam doenças terminais. Há nelas um tipo de sabedoria que nasce do encontro com a finitude. Em muitos relatos, o poder da presença se torna evidente: quando a vida encurta, o agora ganha urgência, valor e profundidade. Talvez seja uma estratégia de sobrevivência. Ou talvez seja apenas a verdade: o presente é o único tempo que realmente existe.
No final da graduação, fiz estágio no Hospital Santa Rita e conversei com muitos pacientes oncológicos. Eu esperava encontrar dor, desesperança e silêncio. Mas, para minha surpresa, encontrei também sorrisos, planos, palavras leves e uma força serena. Muitos viviam um dia de cada vez, como quem segura o presente com as duas mãos. E, assim, descobri — na prática — que presença não é apenas
conceito: é qualidade de vida.
Se estivermos apenas 20% presentes, há ainda 80% de vida esperando por nós. Talvez o convite seja simples: notar, sentir, estar. Porque o presente não avisa quando passa – ele apenas passa.
Entre a vergonha e a coragem
Nota da autora: Para preservar a privacidade das pessoas, alguns nomes utilizados neste texto são fictícios.
Desde 2018, comecei a criar o hábito de escrever reflexões sobre a vida no Instagram. Nunca fui uma pessoa que postava muito nas redes sociais, e expor meus pensamentos — e também um pouco da minha vida — na internet era algo novo e desafiador para mim. Ainda assim, algo no meu coração dizia que eu precisava compartilh r minhas experiências e percepções com outras pessoas, e o Instagram acabou sendo o caminho mais fácil para isso.
O início dessas postagens coincidiu com o começo do meu processo de divórcio — um marco na minha vida, atravessado por sofrimento, mas também por muitos aprendizados. Sei que os divórcios quase sempre despertam julgamentos: os que vêm de fora e, muitas vezes, os que fazemos contra nós mesmos.
Comigo não foi diferente.
Na época, percebi — a partir da minha interpretação — alguns julgamentos externos, expressos em olhares, silêncios e comentários velados. Hoje compreendo que esses “possíveis julgamentos” só foram capazes de me abalar porque eu mesma já estava me julgando. Culpei-me por ter tomado a iniciativa da separação. Culpei-me por ser a suposta causa da infelicidade de outras pessoas: meu ex-marido, sua família, a minha família e todos aqueles que, de alguma forma, sofriam com o fim do casamento.
Depois da separação, comecei a namorar meu atual marido, Gabriel. Embora estivesse muito feliz nesse novo relacionamento, frequentemente era tomada por sentimentos de culpa e vergonha. Mais uma vez, esses sentimentos eram despertados pelo temor do olhar do outro. Eu estava, de fato, mentalmente refém dos possíveis julgamentos externos.
Naquela época, logo após iniciar o relacionamento com o Gabriel, fui convidada para o batizado dos filhos de uma amiga. Seria a primeira vez que eu apareceria em um contexto social acompanhada por ele. Minha mente fervilhava: O que os outros vão pensar de mim? Será que sabem que me separei? Será que vão estranhar eu já estar com outra pessoa? Eram muitas perguntas, todas atravessadas pelo medo da rejeição.
Fui ao batizado com o Gabriel. Lá, acabei sentando ao lado de Paula, uma amiga da anfitriã que eu já conhecia. Paula era casada e muito religiosa, o que aumentava ainda mais minha sensação de inadequação e vergonha. Lembro que me sentia “congelada”, tentando fingir naturalidade, enquanto permanecia aflita diante da possibilidade de qualquer pergunta relacionada à separação.
Até que, de fato, ela me fez uma pergunta:
— Carla, como você teve coragem?
Não sei como você, leitor ou leitora, interpreta essa pergunta. O que aconteceu, no entanto, é que Paula não estava me julgando. Ao contrário: ela me admirava. Em poucos minutos de conversa, percebi que também havia nela o desejo de se separar, embora ainda lhe faltasse coragem para dar esse passo.
Combinamos de conversar por telefone em um momento mais reservado. Contei um pouco da minha história e do que vivi durante o processo de separação. Pouco tempo depois, Paula também se separou. Hoje é casada novamente, aparenta viver um relacionamento mais feliz e tem um filho lindo.
Anos depois, com mais maturidade, pude perceber o quanto, naquele período, estive refém do medo do julgamento externo — e o quanto isso me causou sofrimento. Hoje, na prática clínica, observo que o medo do olhar do outro é extremamente comum no universo feminino, especialmente em situações de divórcio.
Não podemos esquecer que vivemos em uma sociedade machista. Separar-se, nesse contexto, não significa apenas encerrar um relacionamento. Mesmo que de forma inconsciente, pode representar o rompimento com um lugar socialmente legitimado, no qual a mulher é definida por seu papel de esposa e pelo fato de ter sido “escolhida” por um homem. Somos educadas para aguentar, nos sacrificar e não desistir. Assim, tomar a iniciativa de um divórcio costuma carregar um peso emocional enorme, marcado por culpa, vergonha e intenso autojulgamento.
Hoje compreendo que, muitas vezes, o julgamento que mais nos aprisiona não é o do outro, mas aquele que já habita dentro de nós. Quando nos libertamos desse juiz interno, o olhar externo perde força. Mostrar quem somos exige coragem — mas esconder-se, quase sempre, custa mais caro. Talvez a verdadeira pergunta não seja se devemos nos mostrar ou nos esconder, mas o que deixamos de viver quando escolhemos não sermos fiéis à nossa própria verdade.